IFN em Alagoas encontra árvore que pode ser uma nova espécie do gênero Dipteryx na Mata Atlântica

IFN em Alagoas encontra árvore que pode ser uma nova espécie do gênero Dipteryx na Mata Atlântica

  • Publicado: Sexta, 24 de Janeiro de 2020, 15h32
  • Última atualização em Quinta, 06 de Fevereiro de 2020, 14h34

Foi localizada uma árvore madura medindo cerca de 30 metros de altura

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Pesquisadores do Inventário Florestal Nacional (IFN) localizaram única ocorrência, no Bioma Mata Atlântica, de indivíduos gigantes do gênero Dipteryx. A descoberta aconteceu no estado de Alagoas durante a coleta de campo num dos pontos definidos pela sistemática do trabalho na região.

A árvore encontrada é da família das leguminosas, como o baru (Dipteryx alata) e o cumaru (Dipteryx odorata), que têm ocorrências no Cerrado e Amazônia, respectivamente. O consultor do Serviço Florestal Brasileiro, Maurício Figueira, relata a dificuldade em fazer a coleta do ramo da nova espécie da Mata Atlântica, uma vez que a copa começava a 20 metros de altura por se tratar de uma árvore madura.

“Juntando todas as varas do podão (ferramenta usada em podas de árvores) que levamos, mais nossa altura e os braços esticados atingíamos 14 metros, o que não dava para alcançar a copa. No entanto, eu tinha levado um estilingue e pedras, assim fui arremessando-as uma a uma, até que um ramo caiu a 30 metros da gente. Quando analisamos, vimos que era da família das leguminosas, como o feijão e a ervilha. Levamos ao Herbário da Universidade Federal da Paraíba e o professor Rubens, pesquisador desse gênero, afirmou ser um Dipteryx”, disse.

O fragmento foi encaminhado à pesquisadora botânica Catarina de Carvalho e ao professor Doutor Haroldo Lima, pesquisador titular no Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que desenvolve estudos em vários gêneros de Leguminosas neotropicais, entre eles Dipteryx. Os resultados dessas pesquisas têm sido usados como suporte para definir prioridades de conservação da espécie.

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Biodiversidade

Para o professor Doutor Haroldo, “a árvore encontrada é de uma linhagem de plantas muito diversificada nas florestas da região Amazônica, no entanto, a descoberta de uma espécie gigante é a única ocorrente na Mata Atlântica, demonstra a importância dos remanescentes florestais neste bioma, mesmo em fragmentos menores que 100 hectares, e são fundamentais para a conservação da biodiversidade”.   

Ele é o orientador da doutoranda Catarina de Carvalho, que está envolvida no projeto "Taxonomia de Dipteryx, filogenia molecular, biogeografia e evolução no clado Dipterygeae (Leguminosae)". Segundo Catarina,  a descoberta foi algo bastante imprevisível e de muita importância, uma vez que indivíduos com as mesmas características morfológicas só eram conhecidos para Pernambuco.

"Quando a consultora do IFN, Bianca Schindler, entrou em contato conosco informando que tinha coletado um Dipteryx para Alagoas, foi incrível, porque de imediato pensei é "aquele grupo"! Então, é algo muito forte porque seria uma nova espécie para a Mata Atlântica nordestina que provavelmente seria descrita como extinta, mas tivemos a agradável surpresa de que existem esses indivíduos sobreviventes em Alagoas. E, digo sobreviventes, mesmo, porque a área é muito degradada, os indivíduos se encontram em um único fragmento, que não está em uma área de proteção e é uma área envolta por fazendas e plantações de cana-de-açúcar", descreveu Catarina.

“A Mata Atlântica, apesar de tanta degradação, resiste com uma diversidade incrível e ainda não conhecida. Espero que a descrição dessa nova espécie contribua com estratégias de conservação para a área, já que essas árvores gigantes e antigas podem ser derrubadas a qualquer momento. Julgo também de extrema importância descrever uma espécie nova de Dipteryx. Esse gênero possui espécies de forte importância cultural e econômica, como as espécies do cumarú (Dipteryx odorata) e da castanha do barú (Dipteryx alata) e há muito tempo uma nova espécie não era descrita. Foi uma experiência muito importante ter essa nova espécie descrita na minha tese de doutorado, algo que acredito que representou muito para a minha formação, uma vez que vejo tantos desdobramentos possíveis depois dessa descrição, não só para conservação, mas também para outras análises. Isso é indescritível”, finalizou.

Nova espécie

No entanto, para uma árvore “nascer”, ou seja, entrar na categoria de novas espécies é necessário passar por um longo processo que pode levar até 10 anos, desde a sua identificação até a publicação do artigo científico em periódico ou revista especializados, contendo fotografias, desenhos das folhas e frutos, descrição das características e com o nome científico formado, que é uma combinação binária que consiste no gênero e epíteto específico (qualidade).

O Inventário Florestal Nacional vem prestando uma importante contribuição para a ciência botânica brasileira no tocante às descobertas de novas espécies. Desde 2007, quando foi realizado o primeiro levantamento em Santa Catarina, até o momento estima-se que as operações de coleta de campo ajudaram a identificar 24 novas espécies.

O analista ambiental da Diretoria de Pesquisa e Informações Florestais do Serviço Florestal, Tiago Thomasi, informou que o Inventário Florestal Nacional foi realizado em apenas 49% do território nacional e há grande possiblidade de ajudar nas descobertas de muitas espécies, considerando que há muito trabalho pela frente e que as coletas na Amazônia, que tem enorme potencial, estão apenas na fase inicial.2020 01 23 IFN Dipteryx3

“Não fazemos o inventário para descobrir novas espécies, mas ao participarmos dessas descobertas, temos a certeza de que estamos no caminho certo, pois ajudamos a salvá-las. Por exemplo, esses indivíduos encontrados em Alagoas estão numa mancha que está com o risco eminente de não existir mais, pois não tem mais nada perto dela e se desmatarem o local para agricultura ou pecuária, esses indivíduos deixarão de existir. É um trabalho de formiguinha que todo mundo faz aqui e ajuda a contribuir para a conservação da biodiversidade”, disse Thomasi.

IFN

O IFN é um dos principais levantamentos realizados pelo governo federal para produzir informações sobre os recursos florestais brasileiros. Um dos diferenciais do trabalho é a coleta de dados diretamente nas florestas, incluindo a coleta de amostras botânicas e de solo, a medição das árvores e a realização de entrevistas com os moradores das proximidades.O objetivo é avaliar a qualidade e as condições das florestas e a sua importância para as pessoas.

Com abrangência nacional e metodologia única para todos os biomas, a coleta de dados é realizada em pontos distribuídos a cada 20 km de distância por todo o país. São produzidas informações detalhadas e de forma regular sobre aspectos como a estrutura, composição, saúde e vitalidade das florestas, biomassa, estoques de madeira e de carbono.

A proposta é que o estudo seja realizado periodicamente, com as medições sendo repetidas nos mesmos locais. Com isso, será possível também acompanhar as mudanças desses aspectos ao longo do tempo. 

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